A beleza resiste

foto | Ligia Francisco | @ligia_francisco

Ontem Carolina sonhava em silêncio. Hoje pinta por amor a si mesma. Porque aprendeu que salvar o mundo tem a ver com se amar antes de tudo

| Por que você pinta? |

…eu sempre quis pintar… sempre foi um desejo escondido, sabe? Ao mesmo tempo eu nunca tinha entendido como uma coisa possível, eu sempre achei que fosse uma coisa dos outros, que os outros podiam fazer… que não era uma possibilidade pra mim, assim como muitas outras coisas… eu entendia as coisas mais como dom e vocação do que como trabalho… mas também não era uma coisa que eu pensasse, que eu conseguisse elaborar… não, era uma coisa espontânea… eu realmente acho que eu cresci ouvindo isso, então eu entendia que era assim e aquilo nem era uma possibilidade pra mim e eu não conseguia nem questionar aquilo. Mas sempre foi uma coisa que me atraiu, talvez por achar que era uma coisa que eu não podia, então eu só admirava e como era uma coisa talvez inalcançável, tomou um lugar muito especial… no sentido de ser uma coisa que pessoas incríveis faziam… então sempre foi uma coisa incrível… mas eu lembro… hoje quando eu olho pra trás eu lembro, eu tenho memórias… e eu não lembro muito das coisas da minha vida, eu lembro muito pouco… mas eu lembro de situações relacionadas à arte, aula de pintura, aula de artes e de visita a museu… essas lembranças são muito claras pra mim… e eu também cresci do lado da Casa da Cultura de Joinville e eu sempre ia lá esperar a minha mãe buscar ou esperar as minhas irmãs saírem da aulinha de artes… então toda semana eu ia na Casa da Cultura e toda semana eu visitava o museu da Casa da Cultura, eu estava sempre lá, eu via as esculturas, as pinturas, toda semana, então foi uma coisa muito espontânea… eu lembro até do cheiro do lugar… eu lembro da minha mãe explicando o que era o bronze por causa da esculturas… e ela falava “isso é de bronze” que era uma coisa muito especial, um material muito especial… e a minha mãe também fazia aula de cerâmica e ela sempre levava pra casa as peças, então era uma coisa muito presente pra mim… mas era muito inacessível… engraçado isso, nunca entendi como uma possibilidade pra mim… talvez numa criação mais tradicional você vai encerrando as suas possibilidades… e aí eu tinha que escolher um trabalho… a pintura e a cerâmica não eram um trabalho possível, então isso ficou muito latente, muito escondido… e aí recentemente eu resolvi tentar, não sei exatamente porque eu abri esse canal de novo… talvez porque eu quisesse colocar coisas na minha casa [que fossem] minhas, possivelmente porque eu tive o Léo e aí eu voltei a pintar com ele e voltei a ter essa coisa das cores e dos materiais de arte.. eu voltei a pintar com ele e vi que eu podia pintar e desenhar porque ele me pedia isso “mamãe desenha isso, aquilo” então eu comecei a desenhar assim e eu vi que aquilo era sim uma coisa possível e que eu podia desenvolver alguma coisa… então acho que foi por aí na verdade… e aí cheguei aqui [risos]… em lugar nenhum, mas [risos]… não é um lugar né… é isso que eu estou fazendo agora e eu não quero parar, sabe?

| Como que tu definiria esse teu ofício? |

[pausa] …vou tentar não ser muito clichê, mas eu acho que é um oficio… é alguma coisa que me define, é alguma coisa que diz que eu sou eu e eu não sou mais ninguém… então é um oficio que me coloca como uma pessoa única… que é uma coisa que é só minha… eu sou essa, eu sou essa pinta, eu sou essa que pinta essas coisas, desse jeito… e então eu não sou igual a mais ninguém e isso… [pausa e lágrimas] é a coisa mais importante… porque não tem nada pior do que as pessoas serem todas iguais… e eu acho que um dos problemas do mundo é que as pessoas querem ser iguais umas às outras e acho que você tem que primeiro… você só consegue respeitar o outro quando você respeita a si mesmo e a sua individualidade, só que pra você respeitar a sua individualidade você tem que se conhecer… só que se conhecer é um processo muito complicado, muito difícil no mundo de hoje porque não tem espaço pra isso, isso não é importante. Não existe lugar pra isso no mundo de hoje. A única coisa que tem valor é você seguir os grandes padrões e os grandes discursos e as grandes tendências…não tem lugar pra individualidade e talvez eu tenha escondido tanto a minha individualidade que ela… e pintar foi um começo pra isso aparecer, pra isso vir…

| Será que então a arte tem alguma função? | 

Sim! Aliás eu acho que não tem individualidade sem arte! Eu acho que um dos grandes… uma das maiores lições que a gente pode ensinar para as crianças é ouvir o seu lado artístico… porque eu entendo arte como individualidade, ouvir essa criatividade, essa arte em si e não matá-la… encontrar meios e canais de expressão e tentar fazer com que aquilo não morra nunca… porque eu acho que a gente começa a matar… a gente se mata aos pouquinhos quando a gente mata a nossa curiosidade, a nossa unicidade, sabe? Porque acho que todos temos… todos somos artistas, só que a gente vai aos pouquinhos matando esse artista e eu acho que a arte tem sim uma função, não no sentido que se entende hoje por função, mas como o único meio de ser feliz… é por aí, não tem outro meio…

| E o silêncio, o que é pra você? |

… eu me emociono muito com os sons ao meu redor e então o silêncio pra mim é muito precioso… mas não que eu consiga… eu não consigo ficar quieta na minha mente, nunca, então acho que por isso o silêncio é tão importante. Porque os sons me confundem um pouco então eu gosto muito do silêncio pra poder pensar. Ao mesmo tempo meditar é uma coisa muito difícil pra mim, muito difícil, porque eu estou sempre pensando muito, meu trabalho é muito mental, eu sou muito mental, eu posso ficar horas no sofá só pensando, horas, e eu tenho a sensação de que eu fico o dia inteiro fazendo isso. Então os sons me incomodam às vezes, me atrapalham, e por isso eu gosto de mergulhar ou de nadar porque eu escuto muito menos do mundo. Mas o silêncio é fundamental, o desafio é o silencio mental [risos]… é uma eterna busca! Eu não sei muito bem o que é isso e como seria o silêncio mental…

| O que te dá medo? |

… tudo! Muita coisa. Acho que o medo me acompanha desde sempre. Eu acho que toda vez que eu tentei escrever alguma coisa sobre mim, medo é uma palavra que eu uso. Hoje eu consigo ver que não sou só eu. Eu achava que era só eu. Mas eu acho que são todas as mulheres, todas as mulheres têm medo porque a gente vive numa sociedade machista e a gente foi educada de uma certa maneira e a gente tem medo, medo de falar, medo de se expor, medo da violência, medo… medo do sofrimento dos outros. Eu acho que a mulher ela é muito solidária e eu acho que essa solidariedade traz medo também porque a gente sente responsabilidade e culpa pelo mundo e pelos outros. Então medo é uma coisa que vem sempre, que está sempre junto, não só nesta questão da solidariedade mas também na coisa da coragem, de não ter coragem. Eu acho que muito por ser mulher…engraçado que a minha falta de coragem eu sempre li, e hoje eu sei que não era eu, mas a sociedade que coloca de certa maneira… que a minha falta de coragem é medo e às vezes ela era até um pouco entendida como preguiça… não, eu não faço porque eu tenho preguiça!… e não era preguiça, era medo. Ah, você é medrosa! Não! Me tornaram medrosa, não tem muito espaço pra não ser medrosa, não me deram coragem, sabe? Então dá medo… dá medo de muita coisa, infelizmente… mas eu tenho lutado muito contra o medo e tenho lutado muito pra ter coragem.

| E a saudade, faz algum sentido? |

Eu acho que a saudade [lágrimas]… ela não é muito permitida também… eu acho que as pessoas não dão muito espaço para a saudade também, eu acho que você tem que estar sempre pronto para o próximo dia, para as próximas coisas ou para os próximos passos e a saudade não tem muito espaço, mas a saudade também é uma das coisas que mais te define… porque o que é a saudade né? São as coisas que te fazem falta do que você já viveu, ou seja, daquilo que você é, da tua história, então ela é extremamente importante e ao mesmo tempo extremamente escanteada… porque a saudade nada mais é do que aquilo que você é! Então a gente precisa cultivar a saudade, a gente precisa abrir um espaço pra ela… eu acho que ela tem tanta importância quanto a tua história, a tua individualidade, a tua unicidade e a tua arte, sabe? Eu acho que ela é um dos fios condutores para a felicidade… eu acho…

 | E como é que é estar no teu corpo? |

Então, a questão do corpo foi mais um resgate que eu consegui fazer. Eu tenho 35 anos e eu acho que esses 35 anos… esse último ano talvez tenha sido o ano mais importante da minha vida e foi o ano que pela primeira vez eu fiz as pazes com o meu corpo. Sempre houve, sempre senti uma pressão por um corpo magro e firme… mas sempre foi fácil estar no meu corpo, eu sempre fui magra, eu sempre fui bonita e branca, então sempre foi fácil, nunca foi difícil. Ser mulher também… só que ser mulher traz um monte de coisas… eu sempre exigi, eu sempre quis ter um corpo melhor… nessa sociedade toda mulher tem que querer um corpo melhor né? Mais magro, mais firme, mais… né? Mas esse ano eu virei vegana então eu entendo que o mais importante do meu corpo é ele ter saúde… porque esse ano o corpo também adquiriu um lugar na minha vida, então eu estou me sentindo muito mais saudável e com muita energia e eu acho que tem a ver com a coisa de eu ter virado vegana… então eu aceitei meu corpo, sabe? Eu estou aceitando… melhor do que sempre e também porque eu entendi que isso não é uma coisa tão importante, mesmo envelhecendo… acho que o meu corpo de 35 anos fala sobre quem eu sou e isso é mais importante do que qualquer outra coisa, quem eu sou é mais importante do que quem eu pareço que eu sou… eu finalmente entendi isso, então eu aceitei o meu corpo, não é difícil aceitar o meu corpo como eu falei, porque eu sou magra, branca e bonita… então não é difícil aceitar o meu corpo, mas mesmo assim as questões que eu tinha e que eram muitas eu consegui… estou conseguindo lidar muito melhor com elas…

| E o que é ser mulher? |

[Suspiro e pausa]… é difícil essa pergunta porque eu acho que todo mundo devia ser igual, não devia ter mulher e homem, então a minha resposta do que é ser mulher vai ser uma resposta do que é ser mulher hoje nesse mundo… é uma oportunidade… eu acho que é uma oportunidade porque a gente tem a chave para mudar as coisas. Eu acho que as coisas têm que mudar muito e eu acho que o fato da gente crescer tendo uma solidariedade feminina, um olhar pelo outro mais afinado pelo outro do que o que se dá para os homens, uma amizade mesmo entre mulheres… e a coisa também de ser mãe e você ser obrigada a se colocar no lugar do outro… é esse o lugar que a gente cresce e que educam a gente… mas eu acho que esse lugar deveria ser dado para todas as pessoas igualmente, se é homem ou se é mulher. Mas nós fomos criadas e educadas nesse lugar, de prestar atenção no outro, de prestar mais atenção no outro, de se solidarizar mais, de cuidar do outro… e já que a gente tem isso e a gente foi educada assim, isso é uma coisa incrível e a gente precisa ensinar isso pra todo mundo… então é uma oportunidade nesse sentido, de mostrar para o mundo que a gente pode fazer as coisas de outro jeito e que não é ok exercer poder sobre o outro e querer ser melhor do que o outro e explorar o outro e… não é ok! Eu acho que a gente tem muito mais condições, eu acho que a mulher, por conta de toda essa educação e do mundo como ele é… a gente tem mais chances… a gente tem o dever de mostrar isso para o mundo, de ensinar isso para o mundo, de que outras maneiras são possíveis. Então eu acho que a gente tem uma chave na mão que a gente precisa usar, a gente precisa colocar… acho que é isso…

| Ontem Carolina sonhava em silêncio. Hoje pinta por amor a si mesma.

Porque aprendeu que salvar o mundo tem a ver com se amar antes de tudo |

| Carolina Paul Leitão entrevistada por Bianca Spohr |


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