Adeus mamá

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Nicole amamentando Guto com cerca de um ano (foto Fabíola Rocha)

Hoje o relato é de desmame. Depois de todo o perrengue que contei aqui pra conseguir amamentar meu bebê, achei que seguiria tranquilamente até os dois anos. Por muito tempo, eu quis isso. Mas que bom que com o tempo a gente vai ficando mais confiante como mãe e vai aprendendo a ouvir os nossos sinais de desgaste.

Até 1 ano e 3 meses, Guto mamou em livre demanda. Eu dava o peito quando eu queria e quando ele queria. Passamos a maior parte desse tempo juntos, então era bom pra mim e bom pra ele. Só que aí mudamos de cidade e nossa rotina começou a mudar. Ele passou a ficar mais tempo na escolinha e vi ali uma oportunidade de ir, aos poucos, diminuindo o mamá. E eu estava começando a cansar daquela rotina de mamá, mamá e mais mamá. Lembro, nessa época, de ter lido um texto que aconselhava a seguir a seguinte estratégia: não negue o peito ao seu filho, mas também não ofereça. Fez muito sentido pra mim e, devagarinho, fui aprendendo a consolá-lo com colo, mas sem mamá.

Como ele sempre comeu super bem, diminuir ainda mais as mamadas foi relativamente tranquilo. Então lá por abril desse ano (com 1a4m) ele passou a mamar três vezes por dia: ao acordar, ao voltar da escola às 14h e antes de dormir. E assim ficamos durante um tempo. A primeira destas mamadas que resolvi tirar foi a da manhã, pois achava que às vezes ele acordava mais cedo pra mamar. Então expliquei pra ele que não ia mais ter mamá aquela hora, que íamos tomar café juntos, etc. Durante alguns dias ele pediu, mas logo se conformou.

Restavam a mamada pós creche e antes de dormir. Perto do dia das mães, em maio, a vovó veio nos visitar. Então, quando Guto chegou da creche, foi direto brincar com ela e não pediu mamá. Também não ofereci. Durante o final de semana, novamente não ofereci e ele não pediu. Ah, essa foi fácil. Ficamos com uma mamada antes de dormir.

Mas aí a coisa começou a ficar séria. Faltava tirar só UMA mamada… Então eu ia desmamar mesmo? Entre as razões que me levaram a querer isso, estavam em primeiro lugar o cansaço, já que amamentar exige muito, física e emocionalmente, e também a oportunidade de abrir espaço para o pai do meu filho entrar mais na vida dele. Como eu amamentava sempre antes de dormir, acabava já colocando ele pra domir. Todo. Santo. Dia. Estava cansativo. Mas só de pensar que meu bebezinho amado, agora com um ano e meio, não iria mais mamar no meu peito, ai, que dor no coração. Ficava emotiva só de pensar. Chorei uma, duas, muitas vezes. Conversei com outras mães sobre a minha vontade, me lamentei com meu marido, esperei o tempo passar.

Fui, aos poucos, consolidando minha decisão de parar. Fui também me perdoando pelo passo que queria dar. Acho que a gota d’água foi quando eu comecei a sentir uma sensação física ruim quando ele mamava. Aí ficou realmente desconfortável. E, como aprendi aqui, não queria que a coisa degringolasse de vez e que eu ficasse com raiva de amamentar. Então fui vivendo o luto, fui chorando o quanto precisava e fui me despedindo do mamá.

Conversei muito com meu filho sobre o que estava sentindo. Falei que estava cansada, que o mamá estava cansado e que precisávamos mudar. Falei que mamãe estaria sempre ao lado dele, dando colinho e muito amor. Mesmo assim, a sensação que eu tinha era de que ele não seria mais meu filho. Foi muito difícil. Parecia ser uma ruptura brusca demais.

Mas tomei coragem. Falei pra ele que tal dia nós iríamos nos despedir do mamá. E assim foi. Então, no dia 4 de junho, amamentei chorando. Pedi pro meu marido tirar uma foto nossa. Coloquei ele na cama e nunca mais amamentei. Durante uns três dias, ele pediu mamá e depois não pediu mais. Cada pedido partia meu coração, mas eu sabia que não podia mais. Por mim.

Tivemos uma história linda de amamentação. Foram um ano e sete meses de muito leite, nutrição e amor. Apesar de meu coração ainda doer um pouco hoje, pouco mais de dois meses depois do fim, estou confiante de que parei na hora certa, de que fiz de modo gentil e com muito amor, conversa e compreensão. Mas tem momentos, como esse, que precisamos colocar a máscara de oxigênio primeiro em nós mães para termos condições de colocarmos nos nossos bebês. Tchau, mamá!

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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