O bebê que nasceu com os passarinhos

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Cada parto é único e maravilhoso. O nascimento de um bebê é sempre uma oportunidade para renovar a esperança na vida. Hoje vou contar sobre o dia em que meu filho nasceu, que foi o mais longo e o mais incrível da minha vida.

A gravidez que não terminava | Descontando alguns enjoos no começo e algumas dores no final, minha gestação foi super tranquila. Pesquisei muito sobre parto e logo percebi que meu primeiro obsetra não teria condições de proporcionar o que eu queria: um parto respeitoso e com poucas intervenções. Depois de muita reflexão, lá pelo sexto mês de gravidez eu e meu companheiro decidimos trocar de médico. Então com 37 semanas eu peguei um avião e fui para Florianópolis esperar meu filho nascer. Uma semana depois, meu marido chegou. Eu estava ótima. Um pouco cansada, mas ativa. Entrei na 39a, depois na 40a semana. Parece que quando chegamos nessa semana mágica, os bebês têm a obrigação de nascer. Queríamos muito respeitar o tempo do nosso filho, mas a pressão social era forte. Aumentaram as perguntas e, com elas, minha ansiedade… 41 semanas e nada. A sensação que eu tinha era de que meu bebê não nasceria nunca. Fazíamos exames regularmente e ele estava ótimo dentro da barriga. Tive a sorte de contar com o apoio e o carinho de uma doula nesse período. Com 41 semanas e 2 dias, fiz acupuntura por indicação dela. Ali eu pude colocar pra fora toda a tensão que estava dentro de mim. Chorei o tanto que precisava e saí de lá muito mais calma e confiante. No outro dia pela manhã, meu tampão caiu. Eu sabia que o trabalho de parto ainda poderia demorar, mas que esse era um sinal de que algo aconteceria em breve. Viva!

O trabalho de parto | Naquele dia, senti algumas cólicas durante o dia. Mas foi só no final da tarde que eu entendi que eram contrações! E foi aí que elas começaram a ficar mais intensas. Começamos a controlar duração e intervalos, mas elas não estavam ritmadas. Decidimos sair pra jantar! Às 23h, as contrações começaram a doer mais. Tentamos dormir, mas quem consegue fazer isso sabendo que seu filho vai chegar ao mundo nas próximas horas? Pelas 2h da manhã, a coisa começou a ficar tensa. Liguei para o médico e para a doula. Pelo tempo das contrações, ambos acharam cedo para eu ir para a maternidade. Mas eu sabia que era a hora. E fomos. No trajeto, a dor ficou punk! Nem lembro do caminho, só lembro que meu marido estava eufórico, falando sem parar, contando piadas e eu lá, entrando na partolândia, não ouvia quase nada. Chegando no hospital, eu estava com 5cm de dilatação. Uau! Enquanto ele preenchia a papelada, eu me contorcia na cadeira. Pra que tanto papel numa hora dessas, gente? Quando a doula chegou, sugeriu que eu fosse para o chuveiro. Que delícia a água quente caindo sobre meu corpo… Fiquei sentada na bola de pilates embaixo dá água por horas. Isso me trouxe muito alívio. Não lembro direito da sequência dos acontecimentos, pois estava totalmente absorvida pelo momento. Não via mais nada ao meu redor, só conseguia olhar para dentro de mim para segurar a onda. E a madrugada ia se desenrolando. O obstetra vinha de tempos em tempos checar os batimentos do bebê, que ficaram ótimos do início ao fim. Lembro de sentir sono, muito sono! E as contrações ficavam cada vez mais doloridas! Mas entre uma e outra, ficava tudo bem, eu até cochilava um pouco. Parecia que sempre que vinha uma contração muito forte e eu pensava em desistir, vinha outra bem mais tranquila em seguida. É, o corpo é sábio. E nesse vai e vem, eu “esquecia” que queria desistir e seguia adiante.

O período expulsivo | Fui para o chuveiro de novo. Água quentinha, hum, delícia. Eu já não sabia mais que horas eram ou há quanto tempo eu estava ali. Só sabia que as contrações estavam doendo MUITO. Não sei como, mas encontrei forças para falar seriamente para meu marido que não haveria outro filho!!! Lembro também de ouvir os passarinhos cantando lá fora. Um pouco depois, comecei a sentir uma vontade terrível de empurrar. Então, quando vinha uma contração, eu fazia a maior força que meu corpo conseguia pra trazer meu filho. Mas nada acontecia. Outra contração, toda a força do mundo e… nada. Estava muito, muito cansada e queria que aquilo tudo terminasse logo. O obstetra e a doula diziam que eu estava indo muito bem, que ele estava descendo, mas pra mim, não parecia nada disso. Pensei muito em desistir. Várias vezes. Achei que não daria conta. Alguém tira esse bebê daqui agora por favor???

O nascimento | Então, por volta de 9h da manhã do dia 31 de outubro de 2015, eu senti aquele bebê quentinho deslizando e vindo ao mundo. Jamais esquecerei essa sensação. Ele veio direto pro meu colo, chorou um pouco e nós choramos muito. Foi o momento mais emocionante da minha vida. Sem nenhuma dúvida. Até hoje choro de lembrar. Nas horas seguintes, me senti a mulher mais poderosa do mundo. Se eu consegui atravessar um parto, eu sou capaz de tudo. Esse sentimento me acompanha até hoje. Meu filho nasceu e eu renasci com ele. Por inteiro. É difícil, é doloroso, é longo, é intenso. Mas é maravilhoso, emocionante, empoderador.

O resumo | No total, foram 10 horas de trabalho de parto ativo, o que é absolutamente comum para um parto normal. Em termos de expectativas e realidade, um dos meus maiores medos era que a anestesia pudesse prejudicar o andamento do parto, por isso instruí marido e doula para me dissuadirem caso eu pedisse por ela. Mas eu estava tão focada que nem cogitei essa possibilidade. Mesmo tendo pesquisado diversas posições, acabei parindo semi-sentada na cama. Foi o que pareceu melhor no momento. Levei três pontos por conta da laceração no períneo. Não sofri episiotomia. A placenta saiu sozinha logo depois do bebê e o cordão umbilical ficou pulsando por um tempo. A dor é muito intensa, mas vem em ondas. Hoje já não consigo lembrar dela. O corpo da mulher têm total condição de suportá-la. A doula fez um trabalho incrível para aliviar essa dor. E, mesmo depois de ter ido pra guerra e voltado, tendo ficado praticamente 24h acordada, eu tomei banho sozinha e amamentei meu filho. E assim começou esta incrível aventura chamada maternidade!

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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