Meu desmame, teu desmame, nosso desmame

Bianca e Antônio nos campos de lavanda

Faz mais ou menos meio ano que desmamei completamente meu filho. E no entanto, parece que faz muito mais tempo. Na época ele tinha um ano e nove meses e eu estava muito cansada. Cansada de maternar dando o peito. E essa foi a razão pela qual aconteceu o meu desmame.

A amamentação foi um processo intenso e vivido de várias formas diferentes ao longo do tempo. No começo, antes mesmo do meu bebê nascer, eu já nutria uma convicção muito forte de que queria amamentar e ter um parto natural. E assim se fez, só que muito mais do que parto, a amamentação logo se mostrou um desafio considerável. Não era nada fácil como parecia. Primeiro as dores das feridas nas mamas e das costas e braços, depois a questão da “pega” e a incerteza quanto ao bebê estar sendo nutrido adequadamente. Fora as jornadas inteiras, diurnas e noturnas, com mínimos intervalos para as necessidades mais básicas. Então, a primeira coisa que descobri é que amamentar é tudo isso. É um pacote inteiro, fechado, que você aceita ou não. E na época eu não achava que podia recusar, não fazia sentido pra mim não amamentar.

Os dilemas iniciais quanto à pega e as feridas resolveram-se ao longo das primeiras três ou quatro semanas, com muito apoio, esforço e paciência. Mas a consolidação do processo só aconteceu depois de uns três meses investindo em estratégias variadas a fim de manter o aleitamento exclusivo – quando eu finalmente acreditei que meu leite podia alimentar satisfatoriamente meu bebê.

Entramos então numa fase tranquila onde o mamá era alimento e aconchego e na qual desfrutamos dos benefícios todos que podem existir nesse processo.

Não lembro exatamente quando a coisa deixou de ser prazerosa. Houve um tempo em que eu só conseguia acumular cansaço sem ter a menor ideia de como aliviar a minha barra. Mais um daqueles aprendizados ferozes da maternidade.

Acho que por volta de um ano eu já sentia vontade de reduzir as mamadas e abandonar a livre demanda. Eu consegui efetivamente fazer algo à respeito por volta de um ano e meio quando decidi fazer o desmame noturno, coisa que pra nós todos foi um bálsamo. Ao ser desmamado, meu filho passou a dormir a noite inteira, assim simplesmente. Em seguida passou a dormir em seu próprio quarto, o que também aconteceu muito tranquilamente. Acho que a repercussão ultra positiva do desmame noturno me encorajou a reduzir ainda mais as mamadas diurnas, na tentativa de desvincular mamá e sono e assim abrir espaço para outras pessoas me ajudarem nesse ponto. E esse foi outro processo que aconteceu rapidamente e sem sustos. Logo restou apenas a mamada da manhã e um belo dia, todos de férias, depois de muitos chororôs matinais, encerramos de vez a amamentação.

E assim foi. Um alívio. Acho que posso descrever assim o desmame. Mas foi também um empoderamento, pois enfim recuperei a posse do meu próprio corpo. E olha que isso não é pouco. Especialmente depois que você se torna mãe. Porque pra mim o desmame foi um não à “cartilha da mãe perfeita” – aquela que preconiza a amamentação até os dois anos pelo menos – e um sim pra mim. Eu precisava disso. Desesperadamente. Isso eu só soube depois. Bem depois aliás. Há pouco tempo, na verdade. E embora eu tenha amamentado longamente, bem mais do que a média, ainda sim eu precisei vencer essa barreira para fazer valer o meu querer.

Resolvi ler mais um livro daqueles feministas que adoro e me dei conta do quanto eu me aprisionei num ideal de maternidade, um modelo que em muitos momentos não fez sentido algum pra mim, mas que eu me esforcei bravamente para manter simplesmente porque achava que era o que tinha que ser feito. Não entendia como deveria me colocar em primeiro lugar. Não achava possível desejar parto natural e amamentar e não fazer isso me doando em gênero, número e grau. Confundi em muitos momentos “a bandeira da amamentação” com a necessidade de “salvar uma mãe” ou uma mulher que não conseguia ou não queria amamentar ou mesmo aquela que queria desmamar.

Acho que com o tempo e com muitas lágrimas desconstruí parte do ideal a ponto de compreender que todas as escolhas são possíveis e têm valor dentro da maternidade. Tem a ver com honestidade. Honestidade consigo própria. E é tão difícil conseguir isso! Pelo menos pra mim tem sido.

Quanto ao meu filho, ele ainda não desmamou. O peito ele largou sem maiores dramas. Mas a mamãe segue sendo o ponto de referência da sua existência. E embora eu saiba que isso não vai durar para sempre, eu me permito desfrutar desse privilégio que nem sempre são flores.

 

 

Bianca Spohr

Fundadora e editora do FF | escritora e pesquisadora | mãe do Tom | uma experiência parisiense e um doutorado ampliaram suas ideias e a academia deixou de fazer sentido | depois foi a vez da maternidade mostrar que utopias particulares só têm força se multiplicadas | hoje caminha entre mulheres e livros, ouvindo histórias a fim de conhecer e compartilhar mundos diferentes do seu



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.