Uma oportunidade de correr com lobos

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Pintura | Dimitra Milan

Meu encontro com o fabuloso livro Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, de Clarissa Pinkola Estés, foi um presente.  Apesar de já ter visto amigas lendo, nunca dei muita bola para o calhamaço de 376 páginas. Na verdade, o título sempre me intrigou um pouco. Afinal, o que mulheres têm a ver com lobos? Clarissa explica que

“os lobos e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e têm grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha. Tem experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. Têm uma determinação feroz e extrema coragem”. 

Eis que o dia da leitura chegou. Foi aí que descobri que todos os 15 capítulos do livro começam com contos, que fazem parte da tradição de história oral de povos antigos espalhados pelo mundo. A partir de cada um deles, Clarissa sugere “lições” que vão, pouco a pouco, nos curando e fortalecendo. É difícil não estabelecer paralelos com situações que vivemos ou que mulheres próximas de nós experimentaram. O livro é um convite para reconhecermos  a loba que existe em nós e para vivermos em matilha tanto quanto possível (capítulo 1, Mulher-lobo). É um chamado para deixarmos para trás a ingenuidade que faz com que nos coloquemos em relacionamentos potencialmente abusivos (capítulo 2, Barba Azul). É uma convocação para fazermos as pazes com nossa intuição e (re)aprendermos a ouvi-la (capítulo 3, Vasalisa). E assim, em uma sequência belíssima e profunda, Clarissa nos ajuda, conto após conto, a nos reconectarmos com nossa natureza selvagem – que sempre esteve lá, mas que desaprendemos a respeitar. É um mergulho profundo para dentro de nós mesmas e uma oportunidade de sermos honestas sobre quem somos. Porque, de acordo com a autora

“uma vez que as mulheres tenham perdido e tenham recuperado [sua natureza selvagem], elas lutarão com garra para mantê-la, pois com ela suas vidas criativas florescem; seus relacionamentos adquirem significado, profundidade e saúde; seus ciclos de sexualidade, criatividade, trabalho e diversão são restabelecidos; elas deixam de ser alvos para as atividades predatórias dos outros […]  Agora, seu cansaço do final do dia tem como origem o trabalho e esforços satisfatórios, não o fato de viverem enclausuradas num relacionamento, num emprego ou num estado de espírito pequenos demais. Elas sabem instintivamente quando as coisas devem morrer e quando devem viver; elas sabem como ir embora e como ficar”.

É por isso que todas as mulheres deveriam ter a oportunidade de correr com lobos!

Só que o livro não é fácil de ser interpretado e digerido. Sei de muitas mulheres que tentaram fazer a leitura sozinhas em diferentes fases da vida – e desistiram por achá-lo muito complicado. Por conta disso, estou certa de que é mais fácil absorver os aspectos centrais dessa obra incrível em conjunto com outras mulheres. Nós do Fala Frida criamos o Toca das lobas, um clube de leitura que discute o livro, capítulo a capítulo. Temos edições presenciais em Floripa e online via Zoom. Acesse aqui ou nossa página no Instagram para saber os detalhes.

Estar em grupo – ou em matilha – tem muito a ver com a essência do livro. Portanto esses círculos de mulheres são um exemplo prático da natureza gregária dos lobos. Clarissa defende que a mulher selvagem

“abre canais através das mulheres. Se elas estiverem reprimidas, ela luta para erguê-las. Se elas forem livres, ela é livre. Felizmente, por mais que seja humilhada, ela sempre volta à posição natural. Por mais que seja proibida, silenciada, podada, enfraquecida, torturada, rotulada de perigosa, louca e de outros depreciativos, ela volta à superfície nas mulheres, de tal forma que mesmo a mulher mais tranqüila, mais contida, guarda um canto secreto para a Mulher Selvagem”.

O objetivo da autora é que as mulheres reaprendam a ouvir suas almas. Sim, todas somos selvagens, no fundo. Mas muitas – ouso dizer a maioria – foram brutalmente domesticadas pelas estruturas do patriarcado (família, casamento, trabalho, sociedade). Clarissa afirma que o material do livro foi escolhido para nos dar coragem! Bora? Boa leitura e abrace a mulher selvagem que existe em você!

Ah, você consegue uma versão completa do livro em PDF aqui.

Nicole Spohr

Mulher, feminista, cientista social, educadora, escritora e podcaster. Profundamente transformada pela experiência da maternidade e igualmente inconformada com o papel destinado às mulheres na sociedade, fundou a plataforma online Fala Frida, que encoraja mulheres a se expressarem por meio da escrita. Escreve contos infantis e ensaios críticos sobre a condição feminina, facilita grupos de leitura sobre sagrado feminino e ministra cursos e palestras sobre feminismo. Cientista social de formação, pesquisou direitos humanos na periferia global durante o doutorado e hoje atua como professora universitária, ensinando sobre igualdade de gênero, ética e responsabilidade social. Ao longo de sua jornada, entendeu que seu propósito é trabalhar por, para e com outras mulheres na construção de um mundo melhor para todos.



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