Quando nascer menina é perigoso 

Foto: Caroline Hernandez

O vídeo Dear Dad produzido pela ONG norueguesa Care em defesa dos direito das mulheres, mostra detalhes de como a cultura do estupro se constrói na sociedade. É como se fosse um “passo a passo”, desde o nascimento de uma menina, até o momento em que ela sofre violência sexual. São as piadinhas machistas que todo mundo ouve durante a adolescência, o dia em que a menina, em uma festa com amigos, têm seu não ignorado por um ficante, afinal ela estava bêbada e portanto pediu né? O vídeo mostra a “normalidade” de tudo isso, como aceitamos, diariamente, estas pequenas violências e desrespeitos que vão moldando, na cabeça de meninos e meninas, que depois se tornam adultos e adultas, uma visão machista de que o corpo da mulher não precisa ser respeitado.

Dear Dad desconstrói a ideia, defendida ainda por muitos, de que os estupadores são majoritariamente maníacos, doentes ou psicopatas que atacam mulheres em becos escuros. Sim, estes monstros existem. Mas o vídeo toca na inconveniente verdade de que grande parte dos abusos sexuais são cometidos por conhecidos das vítimas. Sim, aquele  colega de faculdade, um vizinho ou o filho gente boa do amigo do seu pai. E, o que é pior ainda, às vezes o criminoso divide a cama com a gente. Porque sexo sem consentimento é estupro, mesmo que o cara tenha a mesma aliança que você na mão esquerda.

A narradora do filme pede ao pai que, além de protegê-la de leões, protêja-a deste perigo silencioso que é a violência sexual. Descortina o fato de que, simplesmente por termos nascido mulheres, estamos em desvantagem neste mundo patriarcal. Por isso o feminismo deveria ser uma bandeira de todos: homens e mulheres. Porque todo homem tem no mínimo uma mãe, se não tem uma irmã, companheira ou filha. E reconhecer que no Brasil uma mulher é vítima de violência sexual a cada 10 minutos talvez dê o tom de urgência que esse assunto merece.

Então, recomendo demais que vocês assistam esse vídeo e repassem para que outras pessoas entendam de onde vem essa tal “cultura do estupro”. E, a partir de hoje, quando ouvir uma piadinha machista safada, não ria. No mínimo, faça uma cara bem feia de que não está gostando ou, melhor ainda, diga pra pessoa que não achou graça nenhuma. Quem sabe assim podemos mudar o destino de tantas meninas.

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.