Coloque a máscara de oxigênio em você e depois no seu filho

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Foto: Alexander Lam

Simpatizo muito com autores que defendem as crianças, que acreditam que elas são boas por natureza e que não tem condições de “manipular” seus cuidadores. Um desafio muito interessante que o pediatra espanhol Carlos Gonzalez propõe é que os adultos tentem ver o mundo a partir dos olhos das crianças. Para a psicanalista francesa Françoise Dolto, os pais só têm deveres para com seus filhos. Pra mim, faz muito sentido. Acho que por isso, sempre foi muito óbvio dar muito colo a meu bebê, atender prontamente a seus chamados e acreditar que a dor dele é verdadeira – que não é manha ou birra. Acabei me acostumando a realizar tarefas do dia a dia com ele dentro do sling. Praticamos cama compartilhada e amamentação em livre demanda por mais de um ano. Fiz tudo isso porque sempre acreditei que ele precisava. E, no fundo, eu também.

Só que, com o passar dos meses, comecei a cansar. Muito. Tinha dores no pescoço que não iam embora nunca, desconforto na lombar, cansaço, irritação por não dormir. Em outras palavras, estava exausta. A ponto de surtar. Meu bebê estava cada dia mais pesado, mexia em tudo e engatinhava pela casa toda. E eu tinha acabado de defender minha tese de doutorado, o que, com um bebê nos braços, não foi moleza. Comecei a sentir falta de ter um tempo pra ler um livro em paz e fazer qualquer coisa sem ele. Mas eu achava que ele ainda precisava daquele mamá da madrugada e daquele colinho constante. E aí, como é que faz? Como encontrar um novo equilíbrio que fosse bom pra nós dois?

Foram semanas de desconforto e um pouco de culpa pensando no que fazer. E acabei radicalizando: optei pelo desmame noturno E pela creche. Sim, ao mesmo tempo. Depois de conversar com outras mães e de ler sobre como fazer um desmame noturno gentil, eu e meu companheiro escolhemos um final de semana e começamos. A primeira noite foi caótica. Muito choro e angústia da família toda. Acabei indo dormir na sala de tanto estresse e meu filho ficou no quarto com o pai. Na segunda noite, muito chororô também, mas um pouco menos. Consegui continuar porque realmente precisava daquilo. Por mim. Fui seguindo as recomendações de ir diminuindo as mamadas gradualmente dentro de um certo horário até que após um semana mais ou menos, ele estava relativamente tranquilo em não mamar de madrugada. Continuava acordando algumas vezes, mas voltava a dormir sem mamar. Ufa!

Na mesma semana, ele começou na escolinha. Talvez tenha sido muita coisa de uma vez só, mas foi o que deu pra fazer naquele momento de caos. O primeiro dia foi surpreendentemene bom. Fiquei um pouco com ele, deixei ele lá e ele ficou bem. Só que ele não tinha entendido que aquilo ia virar rotina… Então nos dias seguintes é que a adaptação ficou muito, muito dolorosa. Não podia entrar na sala com ele, então eu ficava no andar de baixo vendo as cuidadoras pela TV e ouvindo seu choro. Foi pior do que sessão de tortura. Saía de lá chorando e ele também. Qual era o sentido de tanto sofrimento? Quando eu voltava para buscá-lo, ele estava sentido. Ai que dureza. Pensei várias vezes em desistir, mas me convenci de que teria que tentar pelo menos por um tempo. De novo, por mim. E, com o passar dos dias, foi ficando mais fácil. Ele foi se acostumando com a nova rotina e eu com um pouco de liberdade de volta. E fomos ficando bem.

Esses episódios me ensinaram muito sobre os limites entre as necessidades da mãe e do bebê. Hoje vejo que é importante agirmos antes de chegarmos no nosso limite, pra poder fazer as mudanças necessárias de maneira tranquila. Sabe quando você está no avião e te dizem que, em caso de despressurização, você deve colocar a máscara de oxigênio primeiro em você e depois na criança? Acho que com a maternidade é a mesma coisa. Uma mãe extremamente cansada, sobrecarregada – ou sem oxigênio – não têm condições de cuidar do seu filho. As mães também precisam ser cuidadas. Aqueles que estão ao redor dela precisam ficar atentos ao seu bem estar. Por ela e pelo bebê.