A saga da amamentação

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Nicole amamentando Augusto (foto: Chaynala Moret)

Em uma das consultas do meu pré-natal, meu obstetra comentou que, para algumas mulheres, amamentar havia sido mais difícil do que parir. “Impossível”, pensei na época. Durante a gravidez, pesquisei muito sobre as dores e delícias de um parto normal. Estava certa de que, apesar das dificuldades, era aquilo que eu queria. Considerando que médicos, hospitais, profissionais de saúde e sociedade ainda apoiam muito pouco este tipo de empreitada, será que poderia existir algo ainda mais desafiador na minha jornada como mãe?

Pois bem. Tive o parto que quis: sem nenhuma intervenção, na presença do meu marido, doula e obstetra, meu filho mamou na primeira hora de vida, nasceu com um bom peso e tudo parecia estar correndo muito bem. Porém um ou dois dias após o parto, meus seios começaram a doer.

Sangue. Lágrimas. Dor. Muita dor. Sofrimento. Assim foi minha primeira semana amamentando. Pense numa pele fininha, sensível e pouco “usada” que passou a ser sugada ferozmente, de hora em hora, por um bebezinho que dependia daquele leite pra viver.

Chamamos uma consultora de amamentação, que nos deu um suporte imenso: foram dicas preciosas sobre pega, ordenha e sobre como aliviar peitos que vazavam. É difícil saber o que fazer com tanto leite no começo. Minhas blusas viviam molhadas. Lembro que, com muito carinho, ela falou: “filha, teu peito precisa de tempo pra sarar, pra ficar mais forte”. E foi aí que ela matou a charada, pois de fato eu precisei de tempo. Dois meses, pra ser exata. Foi uma saga. Chorei muito. A montanha russa hormonal e emocional do puerpério estava a pleno vapor. E a vida do meu filho dependia daquele mamá. Não era pouca coisa.

Usei todos os recursos que tinha à disposição: pomada de lanonina, óleo e leite materno pra cicatrizar as feridas abertas – que aos poucos se converteram em buracos. Nada disso pareceu ajudar muito. Passei semanas perambulando pela casa sem blusa pro peito ficar seco. Pegava sol quando era possível. Cada vez que meu filho chorava, eu sentia um arrepio na espinha porque teria que colocá-lo para mamar – o que significava que a casquinha que estava sendo formada sobre a ferida seria ferozmente arrancada e eu iria até a Lua de tanta dor. E aí o processo de cicatrização recomeçava do zero – de novo. Mamada após mamada. Dia após dia.

Um fantasma que pairava sobre minha cabeça nessa época era que a pega estava errada. Se tem ferida no seio, a pega está errada – ou é isso que dizem quase todos os sites sobre amamentação por aí. Três consultoras checaram minha pega e o veredito era de que estava certa, mas mesmo assim eu sentia muita dor. Então descobri que nem sempre fissura no mamilo significa pega errada.

No meu caso, o que realmente ajudou foi não oferecer o seio pra acelerar a cicatrização. Então eu tirava meu leite com uma bomba elétrica e dava para o meu filho através de uma técnica chamada sonda-dedo. Não quis correr o risco de oferecer mamadeira pra ele tão novinho (entenda aqui o porquê ). Então durante uma semana eu não dei o peito. Só que a trabalheira era insana. Tinha que ordenhar o leite, armazenar na geladeira, amornar (não ferver), dar mamá pra ele na sondinha, lavar e esterilizar tudo (copinho, sondinha, bomba) e pouco tempo depois já começava tudo de novo, inclusive de madrugada. Sem o apoio do meu marido eu teria pirado. Foi difícil. O fato de meu filho sugar meu leite pela sonda bem direitinho – ele tava fazendo a parte dele, tão miúdo – me dava uma vontade louca de chorar. Até hoje me dá.

Em diversos momentos pensei que não aguentaria tanta dor. Nunca estive tão perto de enlouquecer. I mean it. Pensava em abrir a porta do apartamento e sair correndo – pra nunca mais voltar. Mas de algum lugar vinha uma força que me empurrava pra frente. De vários lugares, na verdade.  Do amor que eu sentia crescendo pelo meu filho, dia após dia – falei pra ele mil vezes que iríamos superar aquilo tudo juntos. Do meu marido, que atravessou as trevas comigo. Das minhas irmãs, que ainda amamentavam seus filhos e me mandavam toda a força que podiam por telefone. Da minha mãe, minha sogra, minhas amigas. Jamais esquecerei essa rede incrível que foi se formando em torno de mim.

A grande lição dessa fase foi: tempo. O tempo cura, o tempo fortalece. E, eis que depois de dois meses, a dor começou a diminuir, diminuir, até que amamentar foi se tornando, aos poucos, prazeroso. Hoje vejo que esse perrengue todo que passamos fortaleceu nosso vínculo mãe e filho. E ele continua mamando, com um ano e meio. Atualmente guardo cicatrizes nos meus seios e a certeza de que se consegui sobreviver a isso tudo, sou capaz de muito mais.

Se você estiver enfrentando problemas para amamentar, você não está sozinha. Veja relatos aqui e aqui. Para quase todos os problemas, há soluções (veja algumas aqui). Você pode fazer relactação, translaçtação e mais um monte de coisas. Procure ajuda, procure uma consultora de amamentação, procure um Banco de Leite. Se você realmente quiser amamentar, tenha fé e continue.  E se você não aguentar mais, tudo bem também. Você não será menos mãe por causa disso.

 

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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