O que o assédio de José Mayer diz sobre o machismo nosso de cada dia

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Foto: Eutah Mizushima

Muito se tem falado recentemente sobre sororidade, que nada mais é do que a solidariedade entre mulheres. Um livro bem bacana que fala do assunto é o da Babi Souza chamado Vamos juntas? O guia da sororidade para todos. A Babi nos conta que sororidade significa “reunião de mulheres que se reconhecem como irmãs formando um grupo pollítico e ético na luta pelo feminismo contemporâneo”.

Quando mulheres se juntam, algo muito poderoso acontece. Senti isso na pele pela primeira vez quando estava prestes a me tornar mãe e passei a fazer parte de um grupo de mães. Imediatamente me senti abraçada, acalentada. Apesar das diferenças nas formas de parir, amamentar e criar, a solidariedade entre aquelas mulheres era quase palpável. E atravessar as sombras do puerpério bem acompanhada foi uma das experiências mais marcantes que já vivi.

Quando a figurinista Susllen Tonani foi a público pra dizer que vinha sendo assediada pelo ator José Mayer, a internet bombou com comentários em apoio à coragem da moça. O movimento #chegadeassédio tomou força nas redes e muitas mulheres, famosas ou não, vestiram – literalmente – a camisa do movimento. Sororidade pura. A mensagem é a seguinte: não vamos mais tolerar assédio. Homens, entenderam?

Parece que não. Alguns comentários de atores da Globo começaram a pipocar, pasmem, em apoio ao agressor, que chegou a negar o assédio e dizer que as falas relatadas pela moça eram do personagem e não dele (oi? a velha e boa estratégia de fazer a mulher assediada parecer uma louca). Depois de uns dias, José assumiu o assédio e a assessoria do ator publicou também um pedido de desculpas, que foi duramente criticado aqui.

Se a sororidade entre nós mulheres felizmente vem crescendo, parece que a parceria entre os homens pela manutenção do patriarcado continua firme e forte. Caio Blat foi um dos que defendeu José Mayer. Depois de muitas críticas nas redes sociais, o ator colocou em sua página do Instagram a seguinte mensagem: “Gostaria de deixar claro que sou totalmente contra qualquer tipo de assédio e provocação machista, e que apóio e admiro o movimento corajoso das mulheres contra essa covardia. Diferente do que alguns veículos publicaram, distorcendo minha declaração, jamais defendi ou relativizei a violência de uma assédio, apenas elogiei a capacidade de um acusado de se desculpar a assumir seu erro publicamente, que é a única atitude cabível. Espero que esse movimento traga uma nova consciência sobre os resquícios de machismo que ainda existem na nossa sociedade, e que ninguem mais seja constrangido em seu local de trabalho ou em qualquer ambiente”.

Quais os problemas desta fala? Bem, alguns. O primeiro e mais grave é elogiar a capacidade de um agressor de se desculpar. Com este comentário, Caio joga luz sobre o agressor e não sobre a vítima. Mas é dela que trata agora. Vamos pensar na relação absurdamente desigual de poder entre um ator branco, na faixa dos 60 anos, com décadas de experiência na TV e com fama de galã perante uma jovem figurinista, mulher, na faixa nos 20 anos, recém contratada pela emissora. Vocês conseguem imaginar o tanto de coragem que ela precisou desenterrar de algum lugar pra falar? E a capacidade do agressor em se desculpar é que é elogiada? Não deveria ser o contrário? Fiquei pensando se no caso da figurinista, a assediada fosse a Maria Ribeiro, atriz e esposa do Caio Blat. Será que nesse caso ele também elogiaria o agressor?

E o segundo e óbvio erro dessa declaração é sobre os “resquícios de machismo que ainda existem na nossa sociedade”. Alguns homens parecem viver com uma venda sobre os olhos. Caio, que fique claro pra você e para quem mais precisar ouvir: não há resquícios de machismo em uma sociedade se a cada 10 minutos uma mulher é estuprada e se mulheres negras ganham somente 40% do que homens brancos na mesma função. Essa sociedade ainda é machista. Não se trata de resquícios.

Cartas como a de José Mayer e declarações como a de Caio Blat nos mostram que ainda temos um longo caminho a percorrer na direção de um mundo mais igualitário…

Shame on you, boys!

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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