Não dá pra criar filho sozinho/a

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Imagem: Pinterest

It takes a village to raise a child…

… já dizia o provérbio africano. Nada mais verdadeiro do que isso. Olhando pra trás, penso que o tempo que demorei pra me dar conta disso foi um tempo perdido, um tempo de ilusão. Acho que levei uns nove meses após o nascimento do meu filho.

Boa parte da minha geração de mulheres foi criada para ser independente, para ganhar seu próprio dinheiro, para não precisar de ajuda. Pois bem. Quando um filho nasce, o que mais precisamos nessa vida é ajuda. De todos. Da mãe, da tia, da avó, da vizinha, da amiga, da empregada (só não do pai porque ele tá junto nesse empreitada de CRIAR um filho, ele não tá ali pra ajudar).

Meu filho nasceu em Floripa quando eu morava em Macaé. Quando ele tinha 14 dias de vida eu decidi voltar pra casa, porque “queria logo ter minhas coisas, minha casa, criar minha rotina, ter minha independência”. Minha mãe veio comigo (antes eu estava na casa dela) e aqui ficou por míseros 7 dias porque eu a mandei embora, considerando que ela estava cansada. Ou seja, eu, em pleno puerpério e com um filho de 21 dias nos braços, despachei minha mãe de volta pra casa e ainda mandei um presente de agradecimento pelos “serviços prestados”. Oi? Eu só podia estar louca mesmo.

Com o passar das semanas, as coisas foram se ajeitando e ficando mais fáceis. Quando o Guto completou um mês de vida, a mamãe independente aqui começou a sair de carro com ele sozinha por aí. Veja bem, sair sozinho com um bebê no carro é um E-V-E-N-T-O! Primeiro porque a chance do bebê chorar na cadeirinha é enorme e você vai querer acudi-lo, sendo que precisa prestar atenção do trânsito pra não bater o carro em ninguém. Depois, você precisa coordenar o horário da soneca e da mamada pra manter o bom humor do serzinho. Outro agravante é que no começo você não está muito bem habituada com o funcionamento da cadeirinha e também com a abertura e fechamento do carrinho, então aquilo ali já dá um arrepio na espinha. Aí é só preparar a mala com tuuuudo que a criança pode precisar durante a meia hora que você vai estar na rua… e pronto, é só sair de casa! kkk só que não. Acreditem: não é pouca coisa. Tenho amigas que levaram três, seis meses pra sair sozinhas com o bebê de carro. Eu estava circulando por aí depois de 30 dias.

Até uns seis ou sete meses eu dava conta do recado de forma relativamente tranquila. Acordava umas 2 ou 3 vezes na madrugada para amamentar e o Guto logo dormia. Passava o dia grudada nele, muito tempo no sling e ele sempre foi um bebê calminho. Só que lá pelos 8 meses as coisas começaram a complicar. Ele já engatinhava e em uma bela segunda-feira, começou a mexer em tuuuudo que tínhamos em casa. Corremos pra trancar gavetas, travar vaso, protetores de quina, erguer vidros, etc, etc, etc, pra tornar o dia-a-dia um pouco menos tenso. As noites começaram a ficar caóticas. Muuuitas mamadas madrugada adentro. Veio a tal da angústia da separação quando o bebê, no meu caso já mais pesadinho, não quer por nada desse mundo sair do seu colo ou te perder de vista. A lombar já começou a reclamar e o humor foi sendo prejudicado.

Quando o Guto fez 9 meses eu surtei. O cansaço era surreal, eu cheguei a sentir vontade de jogar meu filho na lata de lixo. Não via saída para minha situação e me sentia culpada por não “conseguir” cuidar do meu filho sozinha, como sempre acreditei que fosse possível. Nas minhas ilusões pré-maternidade, eu sempre pensava que jamais teria uma babá e que quando precisasse, colocaria meu filho numa creche e deu. Só que a coisa não é beeeem assim não. Naquele momento, eu invejava qualquer pessoa que tivesse uma babá e um pouquinho de vida sem um bebê pendurado. Nessa época minha faxineira passou a vir algumas tardes a mais pra ficar com o Guto enquanto eu fazia alguma coisa sozinha – qualquer coisa valia.

Depois de um certo luto e de muitas conversas com outras mães, passei a considerar a possibilidade de tentar uma escolinha pra ele. Na verdade, quando ele tinha 6 meses, eu já tinha visitado algumas creches da minha cidade junto com uma amiga que voltaria a trabalhar em breve. Então eu já tinha um local em mente. Uma amiga muito querida me falou desse ditado, que já conhecia mas nunca tinha dado o devido valor: “it takes a village to raise a child” ou algo como “é necessário uma vila para criar uma criança”. Ou seja, não é possível criar um filho sozinho. Arrisco dizer que nem um casal, sozinho, não consegue. A demanda de uma criança é infinita e o trabalho é físico e mental. Nos nossos arranjos contemporâneos, geralmente o companheiro sai pra trabalhar e sustentar a família enquanto a mulher cuida da criança. Também é muito comum que os casais morem longe da família, ou seja, tios, primos e avós estão a quilômetros de distância e tem pouca chance de ajudar no dia-a-dia. Somado a isso, às mulheres e seus bebês restam poucos espaços na sociedade, o que contribui para a depressão, tristeza e enlouquecimento das novas mães.

Depois de muito choro e muitas conversas, me convenci de que, estando a maior parte o tempo sozinha com meu filho, eu não teria condições de cuidá-lo e permanecer sã. Então, com pouco menos de 11 meses, o Guto começou na escolinha por meio período. E, depois das dificuldades iniciais de adaptação, comecei a perceber que esse passo foi muito importante pra nós.

Vale lembrar que estou falando das dificuldades que vivi, apesar de ser muito privilegiada: meu filho tem ótima saúde, temos condições financeiras de colocá-lo em uma escola legal e meu marido é um ótimo pai. Ser mãe solo, creio eu, também não deve ser moleza.

Então galera é o seguinte: esse negócio de não precisar ou aceitar ajuda é pura palhaçada. Aceite tudo, o bolo da vizinha, o colo da amiga, as duas horinhas que a vovó pode ficar com a cria enquanto você toma banho, a amiga querida que vem de longe e ajuda a dar a mamadeira pro seu filho. Ajuda: to aceitando!!!

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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