Ser mãe é uma oportunidade de mudar tudo

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Foto: Alice Achterhof

É difícil descrever a magnitude da mudança pela qual nós mulheres passamos quando nasce um filho e, consequentemente, uma mãe. Por isso, creio que tornar-se mãe pode ser uma desculpa – ou razão – para mudar tudo na vida. O mundo lá fora provavelmente vai achar que as recém mães estão mesmo loucas – é, a incompreensão sobre o puerpério é muito grande. Então por que não aproveitar esta chance pra pirar geral?

Os primeiros meses com um bebê são muito intensos. É mamá ou mamadeira pra todo lado, colo, fralda, pouco sono e muito, muito cansaço. Falta tempo até para as coisas que antes eram automáticas como escovar os dentes ou ir ao banheiro. No meu caso, não conseguia nem seguir meu ritual mínimo de maquiagem, algo que sempre foi caro pra mim. E, quando consegui retomá-lo, este foi severamente editado para exatos cinco minutos. Não tenho mais tempo do que isso.

Outro aspecto da minha vida que foi remodelado foi o armário. As roupas tinham que ser fáceis de vestir e, mais ainda, de despir para poder amamentar o tempo todo, já que optei pela livre demanda. Além disso, o corpo que recém pariu é, às vezes, difícil de reconhecer: não é o da gravidez mas também não é o de antes dela. Tirei da frente todas as roupas que não cabiam e deixei o pouco que dava certo bem à mão. Me virei por meses com pouquíssimas peças. E não é que foi um ótimo exercício de desapego?

Para além de maquiagem e roupa – que podem ser consideradas futilidades mas que acabam formando nossa identidade, muitos outros setores da minha vida foram editados. Com um filho sobra muito menos tempo pra bobagens. Passei a ser mais assertiva em minhas escolhas de filmes, livros, seriados. E também de relações. Só o que realmente vale a pena fica. É muito comum que o círculo de amizades mude com a chegada dos filhos. Mas mesmo a minha relação com familiares sofreu mudanças. Meu filho foi a desculpa social para finalmente não ir à praia no horário em que o sol torra – algo que nunca gostei mas fiz muitas vezes para estar com a turma.

Com a vinda do meu filho, parei de fazer luzes no cabelo. Foi difícil no começo, parecia estar faltando algo, mas havia em mim uma vontade de ver meu cabelo como ele realmente era – algo que eu não experimentava há anos. Apareceram os brancos – e também não pretendo fazer muita coisa em relação a isso. A introdução alimentar do meu filho também gerou outra mudança profunda na minha vida – em direção ao vegetarianismo. Foram muitas as razões para esta mudança, que está em processo. A primeira delas foi ambiental, já que a pecuária causa um impacto que hoje considero severo demais para o mundo. Logo depois vieram questões éticas, políticas e de saúde. Saber que temos que ensinar uma pessoinha a comer e que as escolhas dela terão impacto por décadas a fio fizeram com que eu mudasse minha própria relação com a comida. Hoje me sinto mais leve e mais em paz com o que eu como.

Em suma, o que quero dizer é que a chegada de um filho é uma experiência tão avassaladora que  pode ser usada como motor para uma transformação de vida ainda maior. Acho que vale aproveitar a mudança nos hormônios, no corpo, na vida, no casamento, nas amizades, no amor que sentimos pelo ser acabamos de parir e na esperança no mundo que vem com ela para mudar o que há tempo vínhamos querendo e adiando por n razões. Uns podem achar que é passageiro – e pode até ser – outros vão pensar que estamos doidinhas porque somos puérperas… Não importa. O importante é sermos fiéis a nós mesmas.

O blog Antiprincesas e a plataforma FALAFRIDA nasceram a partir destas mudanças todas. A maternidade mudou profundamente minha forma de ver o mundo. Surgiu em mim uma necessidade incontrolável de apoiar outras mulheres, estar com elas, ouvi-las, lutar por nossas dores, por igualdade. E aqui estamos. Você vem com a gente?

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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