CONTO

As mulheres e a choupana

Foto | Muhammadtaha Ibrahim Ma’aji

Para que você entenda a história, peço para que deixe o máximo que possas fora da roda.

Se possível traga a alma da criança curiosa, daquela que não se preocupa com a lógica.

Sente-se, fique de cócoras, deite-se no chão, fique à vontade.

Já viste um pau de fita? A música é mais ou menos assim:

Cada uma recebe os primeiros raios do sol do jeito que lhe cabe

Algumas pegam a trouxa de roupa e vão à fonte

Outras esquentam a água para o café e preparam o de comer aos seus

Algumas só a água barrenta têm para cozinhar os últimos grãos de feijão

Outras se dirigem para a condução, precisam esquentar a panela dos outros

E há aquelas que não chegarão a tempo de pegar seus filhos acordados, seja do sono da noite ou da morte

E já se preparam para um novo labor, dia aqui outro acolá

Cada uma na sua luta, traz a marca comum do parir,

Sejam dos seus ou das outras

Todas sabem embalar cantigas que na maioria das vezes não chegam a tempo de aninhar

Só que hoje uma delas canta outra música

Esta também é ensaiada todos os dias

E diariamente esperança-se em não executá-la

O canto da morte é o que mais lhes persegue

A peça esta armada, todos no cenário estão a postos

Choupana, velas, lágrimas, corpo, braços entrelaçados

O treino diário não tira o nervosismo da estreia,

Sempre será dolorido velar um filho

Para estas, que já parem nascidos mortos, não é menos difícil

Todas esperançam criar, crescer, amadurar e florir

Mas não desta vez. Novamente.

Escutem, alguém chega para entrar no coral

A voz destoa,

Por mais que a natureza se esforce para nos igualar na maternidade

Aqui nesta choupana seu timbre não compõe o cantar.

Não este cantar

Nos dê licença

Se não podes cantar o cântico do criar e do zelar, não poderás cantar o do despedir.

Três batidas no couro do tambor,

O som nasalizado, monossilábico, embala os corações e as almas

No centro está a que mais sofre

No segundo escalão, as que lhe acodem

E, na terceira faixa, as que vigiam

Estas cuidam da porta da choupana

Ali só entra quem o canto cantar sabe

Eu também aprendi a cantar este canto

E você?

– É essa a história!

– E o pau de fita?

– Depois desta dança, mais uma figura no pau se forma. Cada um continua com a sua fita, seguindo o ritmo na sua solidão.

-Que lindas, elas são coloridas….

– Por isso contei esta história a uma criança, ela vê a cor e não rima com dor.

Elisângela Faustino Elisângela Faustino

Natural de Torres(RS) e criada em São João do Sul (SC). Descende de uma família de mulheres e homens incríveis! Graduada em História, Letras e Literatura Alemã na UFSC. Mestre em Ciência da Informação pela mesma universidade.

1 Comment

  1. Avatar
    Catia Silene Possamai
    29/06/2020 / 06:39

    Lindo texto amiga Lili (Elisangela). Profundo como seu modo de ser. Entrei na choupana, ouvi o cântico, senti a dor, o cuidado e o zelar. Gratidão!

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